O Twitter não é mais apenas uma rede social onde se discute política, mas onde também se governa. Valendo-se de um design que privilegia frases de efeito e notícias, políticos agora usam a plataforma com um dos elementos centrais para comunicação política, com repercussões muito tangíveis para a sociedade, para os negócios e para o jornalismo.

Ouça no seu tocador de preferência.

Stitcher Spotify Itunes
Overcast Pocket Casts CastBox



Ficha Técnica

  • Duração: 29m 32s
  • Entrevistados nesta edição: 
    • Patrícia Rossini, Derby Fellow at no Departamento de Comunicação e Mídia da Universidade de Liverpool.
    • Francisco Brito Cruz, diretor do InternetLab
    • Pedro Burgos, jornalista, professor do Insper e Knight Fellow do International Center for Journalistas (ICFJ)

DADOS

Média simples = soma de curtidas e retuítes, de 1º de outubro de 2018 a 1º de abril de 2019

Média 1k seguidores = soma de curtidas e retuítes, de 1º de outubro de 2018 a 1º de abril de 2019, calculada a partir do número de seguidores em abril de 2019.

  média simples média 1k seguidores
Flávio Bolsonaro 15.113 12
Carlos Bolsonaro 11.252 10
Bolsonaro 39.326 10
Dalai Lama 93.117 5
Lula 3.684 5
Eduardo Bolsonaro 6.790 5
Obama 338.071 3
Marina Silva 4.896 2
Papa Francisco 40.146 2
Marcelo Freixo 1.906 2
Trump 104.436 2
Alckmin 1.206 1
Hillary 28.303 1
Neymar 33.890 1
Dilma 4.028 1
Modi 19.747 0
Danilo Gentili 4.602 0
José Serra 181 0
Ivete Sangalo 1.274 0
TOTAL GERAL 40.263 3
-> Fonte: Volt Data Lab, com dados do Twitter
-> Perfis foram selecionados de acordo com ranking do site Social Bakers, com exceção do ex-presidente Lula
  • Livro: O Círculo, por Dave Eggers (Amazon)
  • Estudo: Proximidade temporal entre tweets de Jair Bolsonaro e Carlos Bolsonaro (Volt Data Lab)

CRÉDITOS

  • Apresentação, roteiro, pesquisa e produção: Sérgio Spagnuolo
  • Produção: Francisco Brito Cruz
  • Edição: Murilo Roncolato
  • Pós-produção: Sarah Azoubel e Bia Guimarães
  • Música de aberturaAlteração (ÉA!) por BNegão e os Seletores de Frequência (com permissão do artista)
  • Trilhas: YouTube Music Archive (licença livre)

Transcrição do episódio #6

Sérgio Spagnuolo: Se fôssemos obrigados a tirar uma única lição sobre comunicação política da eleição presidencial dos Estados Unidos em 2016, talvez o Twitter seja a sala de aula ideal para isso. Foi um momento no qual a intermediação das formas mais tradicionais de mídia tiveram importância reduzida. Embora a imprensa tenha tido um papel de destaque nessas eleições, esse papel em boa parte foi marcado pela reprodução de declarações feitas em outro meio - no caso, o Twitter - e posteriormente pela autocrítica desse modelo de reportagem. Claro, a imprensa norte-americana fez muitas outras coisas, algumas delas muitos boas por sinal. Mas em geral não conseguiu escapar da agenda imposta por alguns poucos caracteres publicados na rede social. O Twitter está longe de ser a mais popular dentro da miríade de outras plataformas por aí, mas provavelmente é a mais relevante para o noticiário e para os corredores das cortes, dos palácios, dos parlamentos em todo o mundo - um lugar onde não apenas se comunica políticas, mas onde também se governa. Ministros são contratados e demitidos, relações diplomáticas são reforçadas ou desprezadas, políticas são anunciadas e, ao sabor das repercussões, eventualmente modificadas ou até abandonadas. Políticos, militares, diplomatas, jornalistas, todos ficam ansiosos para saber quais os alertas de presidentes e figuras influentes. Trata-se de uma história sobre como o Twitter se tornou uma avenida política inevitável, cujas repercussões são muito tangíveis para sociedade, para os negócios e para o jornalismo. Você está ouvindo o Caixa-Preta, um podcast que desvenda o impacto da tecnologia na sociedade. Uma parceria entre o Volt Data Lab e o InternetLab. Eu sou Sérgio Spagnuolo. E começa, agora.

Sérgio: Outras plataformas digitais, como o Facebook, o WhatsApp e o Instagram, também fazem parte da comunicação de muitos políticos hoje em dia. Uma parte fundamental, eu diria, da comunicação que eles adotam perante os seus eleitores. Antes, para um cidadão comum seguir o que eles pensavam e falavam, era preciso acompanhar veículos mais tradicionais de comunicação, como por exemplo assistir canais legislativos ou ver entrevistas e declarações na própria imprensa, por exemplo. Agora, com um simples aperto de botão, eles conseguem comunicar suas mensagens diretamente para seus milhares (e por vezes milhões) de seguidores. E o Twitter, nos seus mais de 10 anos, se tornou mais recentemente uma parte central dessa estratégia política.

[chamada do telefone]

Sérgio: Alô, Patrícia?

Sérgio: Patrícia Rossini é uma pesquisadora que há anos estuda os efeitos do Twitter e de outras redes sociais na comunicação política. Mas ela pode explicar melhor o trabalho que tem desenvolvido nessa área.

Patrícia: Eu sou pesquisadora da Universidade de Liverpool, no Reino Unido. Antes disso eu estava na Universidade de Syracuse, nos Estados Unidos, e tenho pesquisado campanhas eleitorais digitais e uso de plataformas digitais para discussão política. Em múltiplas plataformas para determinados tipos de discussão. No meu trabalho nós temos analisado como lideranças políticas fazem uso do Twitter e como o público também faz uso do Twitter e do Facebook para discutir política, interagir com candidatos e, enfim, avançar discursos dentro e fora de campanhas eleitorais.

Sérgio: Patrícia, observando essa nova dinâmica que a gente tem nas redes sociais, especificamente hoje em dia no Twitter, que é a plataforma preferida de muitas pessoas em posição de poder, seja no congresso, seja no executivo. Eu queria entender mais ou menos como que o Twitter está sendo utilizado não apenas para falar de política, mas para fazer política também, efetivamente.

Patrícia: Acho que é importante a gente lembrar que o Twitter está aí já tem 13 anos, existe desde 2006. E desde 2006 muita gente tem pesquisado qual é impacto, qual é a importância do Twitter para a política, para fazer política. As primeiras pesquisas sobre isso, nas eleições brasileiras de 2010, seguindo a eleição do Obama em 2008 e um uso mais eficaz de redes sociais. O uso político do Twitter não é nada novo, né? O que tem mudado nos últimos anos é como atores políticos têm utilizado o Twitter de forma mais estratégica. Agora, a gente também precisa lembrar que o público que está no Twitter é um público muito diferente. Ele não é um público representativo da população brasileira ou da população norte-americana. Porque nos Estados Unidos a penetração do Twitter é em torno de 20% e tem estagnado em 20% - às vezes um pouco maior, às vezes um pouco menor - por anos e anos. O Twitter não cresce. Mas o que torna o Twitter uma ferramenta bastante estratégica é o fato de que a população que usa o Twitter é a população para quem se faz notícia. Então, o fato de que jornalistas estão no Twitter, o fato de que lideranças de opinião estão no Twitter, faz com que políticos tenham se apossado dessa ferramenta de uma forma um pouco mais estratégica para pautar a agenda da imprensa, né. Quem faz isso muito bem e pode ser considerado uma das pessoas que inaugurou esse novo estilo é o Donald Trump. Então mesmo quem não está no Twitter, todos os dias sabe o que o Donald Trump está tuitando. E parece que no Brasil isso está acontecendo da mesma forma. Então essa forma de utilizar o Twitter como você disse, para governar, ela na verdade também é uma forma de usar o Twitter para pautar, para direcionar o discurso público de uma maneira que mais agrada a agenda política.

Sérgio: Donald Trump foi eleito em 2016 como presidente dos Estados Unidos, em uma conturbada eleição. Com menos dinheiro de campanha do que alguns de seus concorrentes durante as primárias do partido Republicano, o candidato conservador valia-se, em boa parte, da repercussão que seus tuítes recebiam em toda a imprensa. Dessa forma, o formato do Twitter tornou-se uma ferramenta quase default de comunicação política. Ao permitir apenas textos curtos, privilegia-se as declarações mais fortes, as chamadas mais assertivas. Ou, em outras palavras, as famigeradas “lacrações”, geralmente sem profundidade ou contexto, mas que causam bastante impacto. Precisamos, assim, compreender o design da plataforma e sua relação no contexto atual da comunicação política. Ninguém melhor que o diretor do InternetLab e produtor deste podcast, Francisco Brito Cruz, para explicar. Fala, Chico.

Francisco: Uma resposta fácil seria a resposta que inclusive tem a ver com como o Twitter se coloca, se vende como uma plataforma dos formadores de opinião. Então, uma resposta fácil seria dizer: bom, eu estou querendo me conectar com os formadores de opinião. Então, eu vou conseguir declarar o que eu quero declarar, minha política, comunicar com aquelas pessoas que são mais relevantes e vão replicar isso por aí. Não é todo mundo, porque como a gente sabe, os dados de quem é usuário do Twitter, não é todo mundo do Brasil. Mas é um grupo relevante o suficiente para eu me conectar e espalhar minha mensagem. Agora, tem outros motivos que eu acho que eu acho que a gente pode ir tentando destrinchar que não são só essa casca, essa casca de dizer que você vai se conectar com os formadores de opinião. Primeiro que tem alguns intermediários, tem algumas empresas de comunicação que antes faziam essa amplificação e não fazem mais. Isso tem um porquê. Estou falando especificamente da TV no Brasil, no caso a TV Globo, por exemplo. Então você conseguia espalhar, durante toda a década de 70, 80 e 90, para 90 e tantos porcento da população brasileira, que tinha ali uma retransmissora dessa TV, algum discurso e esse era o grande e único jeito de você chegar em todo mundo. Só dá para a gente pensar numa política que é comunicada via Twitter, por exemplo, quando esse meio perde força e é misturado com outros também, numa dieta de mídia mais digital, num país onde as pessoas consomem mais outros tipos de comunicação e esses meios de comunicação interagem entre si. Então, um mundo em que é possível uma TV publicar um tuíte.

Sérgio: Tá, mas por que o Twitter, então? Por que não o Facebook, por que essa plataforma onde tem menos pessoas? Igual você falou, é uma plataforma dos formadores de opinião. Só que tem pouca gente lá. Muitas das pessoas que estão em outras plataformas - no Instagram, no Facebook - não estão no Twitter. Por quê?

Francisco: É, acho que uma coisa para dizer é que não é só o Twitter que está sendo utilizado, né. Dependendo da pessoa, dependendo do político e tudo mais, outras plataformas são utilizadas. A gente não pode esquecer disso. Mas, agora, “por que o Twitter”, acho que é uma plataforma que privilegia a declaração. É você declarar coisas. E isso tem a ver com a arquitetura da plataforma. Então, as pessoas no Twitter, por que elas estão lá? Elas estão lá para ver pessoas declarando coisas: fazendo piadas, falando sua opinião sobre as coisas, dando tiradas geniais e, em algum caso, nesse caso do presidente e de outros políticos aí da vez, para gente ver o que eles querem dizer sobre as coisas. É uma plataforma que facilita muito isso porque a declaração é central, né. São 140 caracteres para você dizer alguma coisa.

Sérgio: Aumentou um pouco, agora é 280, né?

Francisco: 280. Eu sou um tuiteiro iniciante, Sérgio. Então você me compreenda porque eu estou aprendendo a usar também.

Sérgio: Então o cara entra lá e ele fala assim “não vai ter textão aqui hoje”.

Francisco: É, e isso você não precisa elaborar muito. Você vai direto para a manchete. Para quem quer declarar coisas, funciona bem. Então acho que tem a ver com a arquitetura da plataforma. Mas aí entra a grande questão, eu acho, que a gente tem que conversar. O Trump tem esse discurso e o próprio Bolsonaro tem esse discurso também e teve no seu discurso de diplomação, quando ele recebeu o diploma de presidente e pode começar o seu mandato depois, em 2019, dizendo que é uma política sem intermediação. Inaugura-se uma era no Brasil na qual a política não tem mais intermediário.

[Bolsonaro: “Senhoras e senhores, vivenciamos um novo tempo. As eleições de outubro revelaram uma realidade distinta das práticas do passado. O poder popular não precisa mais de intermediação. As novas tecnologias permitiram uma relação direta entre o eleitor e seus representantes”]

Francisco: E isso, na minha opinião, não é uma verdade totalmente. Ela pode ser uma meia-verdade. Eu não acredito muito, porque tem um intermediário. Esse intermediário é essa empresa que escolheu que são 280 caracteres, que escolheu que vai ter curtida, que escolheu que vai existir um negócio chamado retweet. E vai construir uma arquitetura para essa comunicação assim como outras empresas de comunicação no passado construíram outras arquiteturas. O que não existe é de fato um editor. Isso é um grande atrativo. O emissor, o político emissor da mensagem, ele tem total controle - dentro dessas condições técnicas, dessa arquitetura - sobre o que ele vai falar.

Sérgio: Moderador de conteúdo, você diz, no caso do editor. Seria…

Francisco: Não, um editor mesmo. Alguém que vai ler a declaração e vai publicar um trecho. Não tem isso. Você publica tudo que você quiser. E aí o que existe, na verdade, são essas condições. Só que essas condições são importantes. Você, jornalista, sabe bem. 280 caracteres é uma regra de edição, é um limite que condiciona o que você vai falar, que condiciona o jeito que você vai se comunicar. Então, enfim, essa ideia de que é uma política sem intermediários, no fundo, na minha opinião, é retórica, né.

Sérgio: E aí que entra a imprensa, tradicionalmente a grande moderadora entre o discurso político e as pessoas. Por muito tempo, antes da internet e até durante um bom período dessa nova era digital, a imprensa se valeu do chamado jornalismo declaratório, no qual os jornais reproduziam o que suas fontes falavam. Essa prática vinha acompanhada de uma curadoria por parte de jornalistas e editores: se julgasse que alguma declaração não era importante ou não tinha impacto, essas aspas não chegavam às páginas dos periódicos, às rádios e ou às telas de TV. Com as redes sociais, os políticos (pelo menos os mais influentes) não precisam mais dessa mediação para passar sua mensagem.

Pedro: Essa mudança é bastante importante no discurso político como um todo…

Sérgio: Quem falou agora foi o jornalista e professor do Insper Pedro Burgos, que há anos tem se dedicado a estudar o impacto do jornalismo na sociedade.

Pedro: Até alguns anos atrás o papel da mídia era um pouco como selecionar quais são as pessoas que são dignas de serem ouvidas sobre determinados assuntos, escolher especialistas, fontes fidedignas etc. E esse poder meio que ruiu a partir do momento que as pessoas tiveram acesso direto a audiências cada vez maiores, né.

Sérgio: É interessante notar que essa mudança de dinâmica mudou a postura do jornalismo perante declarações públicas: muitas vezes em vez de entrevistar as fontes ou pegar aspas em coletivas ou saídas de reuniões, agora a fonte virou o Twitter, ou outras redes sociais, que seja. Parte do jornalismo, então, virou um instrumento de reprodução de declarações em vez de ser um mediador entre político e audiência, assumindo um segundo plano dentro dessa seara.

Sérgio: Isso então mudou um pouco a dinâmica do próprio jornalismo assim, não só da comunicação do governo oficial, mas da relação que o jornalismo tem com o poder. É isso também?

Pedro: Sem dúvida, porque era uma questão de poder, você tinha as fontes. Eu sou de Brasília, e lá começando no jornalismo político você vê que existia muito uma questão de que as fontes usavam de certa forma o jornalista para ter acesso ao público, seja para soltar umas notinhas que são um recado, ou então… E era um jogo mútuo, de ajuda mútua: o jornalista tinha uma fonte exclusiva e a fonte meio que precisava do jornalista para fazer algumas mensagens chegarem ao público. Hoje em dia no jogo de poder, em relação ao poder que o jornalista tem, ele diminuiu essa força, porque agora o político pode chegar no público diretamente, e o jornalista é meio menos importante. Então o cara entre conceder uma entrevista exclusiva, que vai ser vista por relativamente pouca gente no canal a cabo, e fazer uma live, às vezes o cara prefere chegar lá na live, não vai ter pergunta que vai encher o saco dele. Então, nesse sentido, o político, especialmente, ele tinha que passar pelo jornalismo - mesmo que fosse incômodo, mesmo que ia ter pergunta chata - porque era a única maneira de ele chegar ao público. Agora ele pode prescindir disso e passar direto suas mensagens sem interrupção, sem encheção de saco do jornalista. E acho que o jornalismo ainda está tentando achar qual a melhor maneira de se comportar diante disso.

Sérgio: Pois bem, todos esses elementos levaram o Twitter a um novo patamar: em vez de uma eficiente ferramenta de comunicação, a rede social agora também é palco de medidas de governo. A discussão que acontece lá gera novas políticas, avalia os ânimos e a testa a repercussão pública. Também mexe mercados, causa desconfortos entre aliados e orienta a agenda política.

[Fala de Rodrigo Maia: “Ele precisa ter um engajamento maior. Ele precisa ter mais tempo para cuidar da previdência e menos tempo cuidando do Twitter”]

Sérgio: Boa parte disso tem a ver com as pessoas que utilizam de fato essa plataforma. Em geral, o formato do Twitter favorece a divulgação de notícias curtas e simples: algo interessante sobre um acontecimento, um link, uma foto, talvez até um vídeo. Sempre tudo muito breve. E isso, em boa parte, simplificou o montante de informações que jornalistas, políticos e formadores de opinião consomem todos os dias. No meio da avalanche de coisas, o Twitter, mesmo com seu formato pouco palatável para iniciantes, provém um serviço que pode mastigar boa parte do conteúdo, e assim nos ajudar a consumir ainda mais informação. Talvez esse seja um dos motivos pelos quais os usuários dessa plataforma representem o público ideal para mensagens políticas, capazes de repercutir a agenda de quem tem mais influência. Tem até uma piadinha em alguns grupos de jornalistas de que o Twitter passou a ser um diário oficial informal da República.

Sérgio: Você consegue dizer com certeza, então, que o Twitter hoje em dia não é mais uma plataforma onde você discute e comunica política, mas uma plataforma onde você está efetivamente fazendo política? A gente vê o Bolsonaro contratando o Vélez, anunciando a contratação do Vélez via Twitter e anunciando a demissão do próprio Vélez via Twitter também. Então é onde está sendo feita a política de fato, o diário não oficial, como eu tenho falado?

Francisco: É, eu acho que sim, porque não é mais o lugar onde os jornalistas estão contando ou falando sobre o que está acontecendo. É um lugar onde os personagens da política estão fazendo a política. E nisso eu acho que você tem razão. Mas ali, o que eu acho que é importante a gente notar, é que não é a pessoa 100%. Não é um retrato fiel do Bolsonaro. O Bolsonaro não é assim 100% do tempo. Ele está performando. Ele está pegando essa arquitetura e se encaixando nela, e tentando fazer o melhor que ele consegue dela, utilizando ela da forma mais estratégica que ele acha. E aí, o que é muito importante da gente pensar: ele está fazendo política? Está. Mas ele está performando política, ele está se considerando um personagem também. E isso é super importante porque… E aí dá até para lembrar aquele livro ‘O Círculo’, não sei quem aí leu esse livro, foi um best-seller uns anos atrás, que a ideia da empresa que aparecia no livro era colocar uma câmera e um microfone em todos os políticos do mundo, porque aí você conseguia ver tudo o que eles viam e ouvir tudo o que eles falavam. Não é bem assim que acontece no Twitter. É o que a pessoa está escolhendo de forma bem meticulosa, por mais que apareçam aí vídeos do golden shower da vida, também dá para dizer que aquilo foi escolhido, estratégico, né. Você não está vendo o cara falar tudo o que ele pensa. Você está ouvindo o cara falar o que ele quer postar no Twitter naquele momento.

Sérgio: Seja ou não um perfil de Twitter a representação fiel de políticos, a verdade é que alguns deles têm muita influência por lá. Uma das formas de aferir isso é calcular a taxa de engajamento. Por conta dessa nova realidade política, eu, pessoalmente, tenho analisado muito os dados dessa rede social e pensado em formas de medir o engajamento na plataforma. Um estudo que eu fiz especialmente para este podcast, que você pode encontrar lá no site do Caixa-Preta, analisou os perfis de 3 celebridades e 10 políticos brasileiros, além de 5 políticos internacionais e o Papa. Todos têm mais de 1 milhão de seguidores, exceto o perfil do ex-presidente Lula. Quando a gente considera o engajamento medido apenas pela soma de curtidas e retuítes de um post, o ex-presidente norte-americano Barack Obama, com seus mais de 100 milhões de seguidores, lidera o ranking, com uma média de 338 mil engajamentos por post nos últimos seis meses. Bastante coisa. O presidente Bolsonaro fica em quinto lugar, com 39 mil engajamentos por post nos últimos seis meses também, atrás também de Donald Trump, Dalai Lama e do próprio Papa Francisco, mas à frente de Neymar e Hillary Clinton, por exemplo.

Sérgio: Segundo o jornalista Pedro Burgos, que nós conversamos há pouco, essa pode ser uma boa métrica para medir engajamento. Mas decidi ir um pouco além. Como Barack Obama tem mais de 100 milhões de seguidores e Trump tem mais de 40, 50 milhões, considero exagerado comparar com um político como Bolsonaro, que até esta gravação tinha cerca de 4 milhões. Decidi, então, calcular a taxa de engajamento por mil seguidores. Os resultados, na minha opinião, foram impressionantes: a família Bolsonaro foi o trio que liderou o ranking. Em primeiro lugar ficou o deputado Flávio Bolsonaro, com 12 interações a cada mil seguidores, seguido de Carlos Bolsonaro e Jair, praticamente empatados com 10 interações a cada mil seguidores. Obama, antes primeiro no outro ranking, pulou para sétimo lugar. Enfim, independente de como você faça essa mensuração, a verdade é que o discurso político no Twitter é cada vez mais capaz de atrair engajamento online, e não apenas desse personagens centrais da política, como vamos ver a seguir.

Sérgio: E vale dizer também, assim, a gente fala muito do Bolsonaro porque ele é o exemplo mais central dessa estratégia, mas a gente tem aí a Tábata Amaral fazendo um trabalho muito abrangente no Twitter também, se comunicando muito por lá também, postando aquele vídeo do embate dela com o Vélez, ministro da Educação, viralizou por lá…

Francisco: Tem um exemplo claríssimo do outro lado, que na minha opinião também é uma performance, que é o José de Abreu, que é aquele ator super petista, que agora inventou que é o presidente do Brasil autodeclarado, e está fazendo piada, tentando fazer troça, tal. Também é uma super performance. O próprio Haddad, o Fernando Haddad, também entrou nessa. O Bolsonaro talvez seja um grande exemplo de alguém que instintivamente, assim como o Trump, consegue dominar os ciclos de notícia com base no que posta. Porque tem um discurso meio sui generis, meio próprio dele.

Sérgio: E porque ele é o presidente também, né?

Francisco: Exatamente. Que nem o Trump, né. É engraçado que o Trump tem uma consequência do que ele faz que eu acho que vai começar a aparecer no caso do Bolsonaro também, no caso de todos os políticos. O Trump posta muito no Twitter e você consegue ver o horário que ele posta - porque todo tuíte tem um horário. E aí o que o pessoal começou a investigar e descobrir é que ele via um programa da Fox News - aquela rede pró-Trump dos Estados Unidos - todo dia na mesma hora, e tuitava sobre as coisas do programa sempre, naquela hora, enquanto ele estava vendo o programa. Então você conseguiu saber, por exemplo, algo muito particular sobre que tipo de notícia que o presidente está consumindo com base em evidências que estão abertas na rede social, que é sobre o que ele está postando e qual o horário que ele está postando. Se você der uma olhada nesses levantamentos, é muito impressionante. Ele realmente está olhando o programa, achando legal o que a pessoa está falando, e postando. Isso revela muito sobre a pessoa. Então, vamos ver se os horários desses políticos brasileiros que estão tuitando muito vão revelar alguma coisa ou se não vão revelar, né. Se eles programam os tuítes para serem postados sempre na mesma hora, ou se eles vão mais espontâneos. Isso diz sobre a personalidade do político também.

Sérgio: Para encerrar, Chico, o que você acha, o que você vê daqui para a frente em relação a isso? Porque a gente tem aí na política, muitas pessoas já estão ficando de saco cheio do jeito que os governantes estão lidando com Twitter. Pelo menos aqui no Brasil, né, a gente vê uma certa crítica sendo feita ao presidente, aos filhos do presidente e o jeito que eles estão usando o Twitter. Algumas pessoas já baixaram um pouco a bola do que elas estão postando ali e tal. O que você vê daqui para a frente? Obviamente vai continuar sendo uma plataforma importante, mas agora, no momento que a gente está gravando este podcast, faz três dias que o presidente não tuíta já, né. Então isso pode… Enfim, o que você vê daqui para a frente? Uma reavaliação do que está sendo feito, porque chegou num limite em que as pessoas já estão de saco cheio do que está acontecendo. O que você enxerga?

Francisco: Olha, é engraçado porque nunca seria notícia antes o fato do presidente estar há três dias sem tuítar, né? Então, isso já atesta a importância dessa ferramenta, né?

Sérgio: Tem pessoas preocupadíssimas que o presidente não tuitou ainda.

Francisco: Exato, exato. Então, eu acho que tem um ponto central aí, que você falou, que é o controle dos perfis.

Sérgio: Uma nota breve aqui: um estudo que eu fiz sobre a interação entre as contas de Jair e Carlos Bolsonaro e que foi publicado no site Intercept Brasil em fevereiro de 2019 mostrou alta influência do filho do presidente sobre a rede social do pai. Esse estudo é baseado em uma análise quantitativa do engajamento entre as duas contas e o tempo de publicações entre elas. O link está lá no site do Caixa-Preta.

Francisco: Isso eu acho que vai sempre ser uma questão, e é uma questão que vai ter que ser resolvida uma hora ou outra pelos políticos que tem esse controle meio fluido do perfil que dá ali acesso para várias pessoas ou para a família, no caso do presidente… Eu acho que, nesse ponto, de fato, você causa ruídos, não necessariamente é a melhor escolha, eventualmente você vai mudar isso. Agora, saturar, ou que isso esteja saturado, eu não sei, eu acho que não. Eu acho que estar saturado ou não depende do estado de polarização que a gente tem no Brasil. Se a polarização diminuir talvez a gente fique menos discutindo política nessa rede social e passe a discutir mais o MasterChef, ou o BBB, ou sei lá o que - que já são coisas extremamente discutidas, é importante dizer. Essas redes têm outras culturas online para além da política, né.

Sérgio: Não se fala só disso.

Francisco: Exato. Mas tem a questão da polarização, e tem a questão da dieta de mídia. Essas duas questões - como é que o brasileiro está se informando e se o brasileiro está falando muito sobre política - é o que eu acho que vai definir ou que vai colocar se a gente vai se saturar disso ou não lá na frente. Porque se a gente continuar muito na internet, ou cada vez mais na internet, e muito polarizado politicamente, possivelmente a união desses dois fatores vai fazer com que a gente continue discutindo política no Twitter e que os políticos continuem performando no Twitter do jeito que eles estão performando hoje. O que não deixa de ser divertido, né?

Sérgio: Com certeza. Chico, muito obrigado.

Francisco: De nada.

Sérgio: Esse episódio foi produzido por mim, Sérgio Spagnuolo, e por Francisco Brito Cruz. A edição e finalização é de Murilo Roncolato. A pós-produção é de Sarah Azoubel e Bia Guimarães, do podcast 37 Graus - que eu recomendo muito. O apoio para o Caixa-Preta vem do centro de pesquisas em direito e tecnologia InternetLab. Você pode encontrar o Caixa-Preta nos principais agregadores de podcast ou no nosso novíssimo e belíssimo site cxpx.com.br, onde você encontra todos os links para redes sociais, RSS e referências citadas aqui. Ah, e se você usa Twitter, não tem desculpa nenhuma para não nos seguir em @caixapretacast. Até a próxima.




Ouça no seu tocador de preferência.

Stitcher Spotify Itunes
Overcast Pocket Casts CastBox Podtail